Io sono meraviglia, tutto il resto è paranoia*

Durante um estranho fim de semana em Firenze, apercebo-me de que o meu estado de espírito está onde nunca esteve. Pelo menos nunca me tinha observado desta perspectiva. Reencontrei-me com um embaraço infantil que, ao mesmo tempo, é demasiado egocêntrico.

As palavras faltam-me em grupo, mas em diálogos empurram-se umas às outras. Formulo várias hipóteses que possam resolver tal dilema pessoal. A mais dramaticamente sincera aponta a muleta química, que tenho vindo a usar há muito tempo, como a culpada. Demasiado tempo. Encontrei-a bem antes de descobrir a comunicação inter-pessoal tanto ou mais relevante que a intra-pessoal na qual me vejo, sem qualquer falsa tentativa de modéstia, um mestre há muito tempo.

Retorno agora à minha actual casa que, temporariamente, troco por dinheiro em Bologna, da mesma forma que a deixei: no comboio mais lento, mas menos caro, e o primeiro livro de Gonçalo Cadilhe marcado a meio sentado a meu lado.

Para além da direcção oposta do meu actual movimento, há algo mais que é diferente. Sinto-me mais inquieto que o normal. Mais preocupado. Mais nervoso. Numa palavra, mais sóbrio. Começo, então, a questionar a utilidade da velhinha muleta e da ilusão que tenho de a ter substituído recentemente: cafeína, nicotina, alcool, canabinóides, derivados dos ácidos lisérgico e benzóico, anfetaminas, são todas a mesma muleta, usada de maneiras diferentes, mas parecidas.

Não vou mentir-me, tal hipótese já tinha sido formulada anteriormente durante uma de muitas intra-relações, mas desta vez algo externo me fez tremer. O inesperado mas desejado encontro com este ser, que aparentava conseguir possuir inocência e atrevimento perspicaz num mesmo compartimento, animando-o de uma energia invejável, deixou-me confuso e atrapalhado. O que antes parecia um paradoxo, surgiu diante de mim implementado num ser humano.

E pronto, volto a guardar mais uma intra-conversa – que aqui se transforma na sua homóloga – e volto a acordar o Planisfério Pessoal.

* O título foi roubado a um poeta desconhecido.

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